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Internet e relação com médico: os avanços e desafios da telemedicina

No início do mês de maio, o CFM (Conselho Federal de Medicina) regulamentou a telemedicina no Brasil. Dessa forma, serviços médicos mediados por tecnologia podem ser feitos sem qualquer tipo de impedimento ou restrição.

Em abril de 2020, a prática já havia sido liberada em caráter emergencial por causa da pandemia de covid-19, justamente para facilitar o acesso aos atendimentos de saúde durante a crise sanitária. No entanto, ainda não havia uma uma decisão oficial e a legislação era de cunho temporário.

Segundo um estudo feito pela American Medical Association, 75% das visitas a serviços médicos regulares ou de emergência são desnecessárias, o que pode ser feito de forma mais segura e eficaz por telefone, chat, vídeo ou outras plataformas digitais. Uma outra pesquisa mostrou ainda que pacientes que usaram a telemedicina tiveram 31% menos internações hospitalares, 48% menos dias totais de hospital e estavam mais preocupados com seus cuidados de saúde.

Sob o prisma de atendimento ao cliente, hoje, de acordo com Walter Hildebrandi, CTO (Chief Technology Officer) da Zendesk, 71% dos brasileiros dizem que esperam padrões mais elevados de atendimento após os últimos anos de pandemia, como mostrou dados do relatório CX Trends 2022. Publicado pela Zendesk, o estudo apontou ainda que as instituições de saúde que adotam soluções de experiência do cliente têm, em média, pacientes 2,7 vezes mais satisfeitos do que as que não adotaram soluções.

Essa nova realidade também foi sentida no Brasil. De acordo com dados da Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde), desde o começo da pandemia até o fim de abril de 2022, foram realizadas cerca de 5 milhões de consultas virtuais somente pelas operadoras da associação, que somam 9 milhões de beneficiários.

Caio Soares, presidente da Saúde Digital Brasil, afirma que o crescimento da área foi um fenômeno e se intensificou ainda mais no começo deste ano. O especialista destaca também que antes da pandemia o Brasil vinha com um avanço tímido, mas quando as pessoas começaram a ter experiências positivas, a procura cresceu rapidamente.

“Durante a onda da [variante] ômicron, aumentou quase 20 vezes o acesso à telemedicina e diminuiu essa barreira que tinha antes da pandemia. Foi um fenômeno interessante”, afirma.

Abertura para novas consultas

Especialistas destacam que, se no passado um paciente que tinha um problema de pele, por exemplo, demorava cerca de seis meses para conseguir ser atendido no sistema público, agora essa demanda pode cair para uma semana.

“Com um longo tempo de espera, a doença já se espalhou. Agora é mais resolutivo e amplia o acesso, facilitando o tratamento logo no começo”, destaca Soares.

O retorno após uma cirurgia ou procedimentos mais invasivos também podem ser feitos via teleconsulta, sem a necessidade de a pessoa ir até um consultório para o médico ver a cicatrização e curativos.

Outro ponto em destaque é a facilidade e segurança no armazenamento de dados —sempre seguindo os preceitos da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados). No caso de um prontuário eletrônico, as informações de um indivíduo não serão perdidas facilmente.

Jefferson Gomes Fernandes, neurologista e coordenador do programa de Educação em Telemedicina e Saúde Digital da Seção Paulista de Medicina, reforça que as teleconsultas vieram para diminuir a desigualdade social, econômica e geográfica.

“No Brasil, estávamos bem atrasados em teleconsultas. Hoje, nós vivemos uma desigualdade de acesso e essa tecnologia veio para diminuir justamente isso. É preciso olhar para políticas de saúde pública que já usam esses sistemas, traçar planos estratégicos e desenvolver parcerias com o sistema privado”, diz Fernandes.

A saúde na tela

No caso do atendimento virtual, os especialistas ressaltam que praticamente todas as áreas médicas se beneficiam com a prática. Em destaque ainda mais para atenção primária em saúde, com os médicos da família. “Os médicos de família conseguem atender crianças, adultos e idosos. As estatísticas mostram que eles conseguem resolver até 80% dos casos”, destaca Soares.

A consultora técnica Naira Asano, 35, fez uso da telemedicina quatro vezes ao longo desses dois anos de pandemia. Quando suspeitou que estava com covid-19 realizou as consultas de forma online e achou o atendimento simplório. “Foi uma conversa bem simples e fácil. Agendava pelo convênio e você tinha que ficar online naquele período”, diz.

Ela conta que era um pouco resistente à prática, mesmo sabendo que o método era válido. Em todas as vezes que fez consultas online achou que os profissionais estavam com pressa e que desejavam encerrar logo o contato.

Além da atenção primária, especialidades como psiquiatria e psicologia são as que ganharam mais força durante a pandemia e devem continuar em alta nos próximos anos.

No entanto, depois de um tempo, percebeu que devido à rotina pesada não conseguia refletir ou pensar em todos os problemas. “Percebi alguns prejuízos. No online ficava até o último segundo trabalhando, entrava para a terapia e chegava meio perdida. Já quando era o presencial, durante o trajeto de onde estava até o consultório, era um momento para refletir o que gostaria de falar durante a sessão.”

Sua terapeuta pontuou que certos movimentos corporais foram deixados de lado, devido ao atendimento ser feito pelo celular e ela conseguir ver somente o rosto da paciente. A má conexão também foi uma das queixas da consultora técnica. “Às vezes, estávamos em uma linha de raciocínio, a chamada caía e aquilo que você queria falar se perdia”, afirma.

Já o advogado Leonardo Gonçalves afirma que sua experiência com a telemedicina foi positiva. Morando em Nova York, nos Estados Unidos, no auge da pandemia, ele conta que precisou de atendimento psiquiátrico no país.

Na época, seu terapeuta o encaminhou para a especialidade, e como ainda tinha o convênio no Brasil, pôde usar o serviço normalmente. “Se tivesse que pagar por um atendimento nos EUA sairia muito caro e ainda teria risco de pegar covid. A consulta foi boa, o médico perguntou o que eu estava sentindo, me deu um diagnóstico e indicou uma medicação”, conta.

Vale lembrar que a teleconsulta não invalida o atendimento presencial e vice-versa. Ela é mais uma opção de acesso à saúde, segundo os médicos. No caso de um acompanhamento longo feito com um especialista de determinada área, ele conversará com o paciente se é válido ou não realizar uma consulta física em determinado momento.

Para ter acesso a esse tipo de serviço de forma gratuita, o paciente pode checar no site de cada prefeitura quais modalidades estão disponíveis pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Já na área suplementar (planos de saúde privados), geralmente é possível consultar-se no aplicativo ou site de cada convênio.

Consultas serão mais tecnológicas

No futuro, será possível fazer exames por meio de celulares e computadores, usando apenas a câmera dos aparelhos. Por meio de softwares, que são implantados nessas máquinas, será possível medir a temperatura da pessoa e fazer a identificação por cores.

Mas é claro que isso depende também de as políticas públicas fornecerem largamente internet gratuita em todos os cantos do país ou a preços populares, e de a população ter acesso a smartphones com preço acessível, algo ainda distante para a maior parte dos brasileiros.

“Se você coloca um paciente que está gripado em frente a essa câmera, o próprio sistema consegue identificar que esse padrão corresponde a um sintoma gripal”, afirma Soares.

Outros diagnósticos, como inflamação na tireoide ou mau funcionamento da glândula, também poderão ser feitos por meio dessas ferramentas. “A câmera poderá mostrar uma temperatura fora do normal e talvez a pessoa possa investigar um problema na tireoide”, diz o presidente da Saúde Digital Brasil.

Ele acredita ainda que daqui a alguns anos a telemedicina será vista como principal modalidade para qualquer procedimento de consulta médica.

Quais são os desafios?

O ideal é que o Brasil invista em telecomunicações, facilitando a expansão da telemedicina em áreas mais afastadas e também nos grandes centros urbanos. “É necessário que se tenha banda larga e expansão. É importante investir em educação para pessoas e ensinar como lidar com um dispositivo celular. E não só o uso de equipamentos, mas também entender o que é telemedicina tanto no sistema suplementar quanto no sistema público”, reforça Fernandes, que também é presidente do Global Summit, maior evento de telemedicina na América Latina.

Em termos de tecnologia, também é necessário garantir segurança em determinados aplicativos de consulta para que todas as pessoas se sintam seguras de realizar qualquer atendimento nessas plataformas.

Por último, a relação médico-paciente ainda precisa ser desenvolvida de maneira mais efetiva, já que muitas pessoas sentem falta de um contato mais próximo com o profissional.

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